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Mulheres em luta pelo direito à comunicação

1 ago

Carta aberta por um novo marco regulatório para as comunicações no Brasil

As organizações do movimento feminista há tempos discutem a necessidade de mudanças no sistema midiático em nosso país de forma a garantir a liberdade de expressão e o direito à comunicação de todos e todas, e não apenas daqueles que detêm o poder político ou econômico e a propriedade dos meios de comunicação em massa.

Historicamente, combatemos a mercantilização de nossos corpos e a invisibilidade seletiva de nossa diversidade e pluralidade e também de nossas lutas. Denunciamos a explícita coisificação da mulher na publicidade e seu impacto sobre as novas gerações, alertando para o poder que esse tipo de propaganda estereotipada e discriminatória exerce sobre a construção do imaginário de garotas e garotos. Defendemos uma imagem da mulher na mídia que, em vez de reproduzir e legitimar estereótipos e de exaltar os valores da sociedade de consumo, combata o preconceito e as desigualdades de gênero e raça tão pre sentes na sociedade.

No momento em que o governo federal, o Parlamento e a sociedade brasileira discutem a elaboração de um novo marco regulatório para as comunicações em nosso país, nós, mulheres, trazemos a público nossas reivindicações, somando nossos esforços ao de todos os movimentos que acreditam na urgência de uma mídia efetivamente plural e democrática para a consolidação da democracia brasileira.

Afirmamos a importância da adoção de medidas de regulação democrática pelo Estado sobre a estrutura do sistema de comunicações, a propriedade dos meios e os conteúdos veiculados, de forma que estes observem estritamente os princípios constitucionais do respeito aos direitos humanos e à diversidade de gênero e étnico-racial. Já passou da hora de o Brasil respeitar os acordos e tratados internacionais que ratificou sobre este tema e de colocar em pleno vigor sua própria Constituição Federal, cujo capítulo da Comunicação Social é, até hoje, vergonhosamente, o menos regulamentado.

Neste sentido, reivindicamos a criação do Conselho Nacional de Comunicação, uma das resoluções centrais da I Conferência de Comunicação, até hoje não tirada do papel. Defendemos ainda a instituição de mecanismos de controle de propriedade, com o estabelecimento de limites à propriedade cruzada dos meios; o fortalecimento do sistema público e das mídias comunitárias; transparência e procedimentos democráticos no processo de concessão das outorgas de rádio e televisão, com o fim das concessões para políticos; o estímulo à produção regional e independente, garantindo espaço para a expres são da diversidade de gênero e étnico-racial; mecanismos de proteção à infância e adolescência, como o fim da publicidade dirigida à criança; e procedimentos de responsabilização das concessionárias de radiodifusão pela violação de direitos humanos na mídia , entre outros.

Num cenário de digitalização e convergência tecnológica, entendemos que o marco regulatório deve responder às demandas colocadas em pauta e promover uma reorganização do conjunto dos serviços de comunicações. Trata-se de um processo que não pode ser conduzido de forma apartada das diversas definições que já vem sendo tomadas pelo governo federal neste campo, como os recentes acordos anunciados com as empresas de telefonia em torno do Plano Nacional de Banda Larga.

As organizações do movimento feminista se somam à Campanha Banda Larga é um Direito Seu! e repudiam não apenas o recuo do governo em fortalecer a Telebrás e dar à empresa pública o papel de gestora do PNBL como a total entrega ao mercado da tarefa de ofertar à população aquilo que deveria ser tratado como um direito: o acesso a uma internet de qualidade, para todos e todas. Para as mulheres, a banda larga é uma ferramenta essencial de inclusão social, acesso à saúde e educação, geração de emprego e renda, acesso à informação e exercício da liberdade de expressão. Um serviço que d everia, portanto, ser prestado sob regime público.

Por isso, e porque queremos um novo marco regulatório para as comunicações, nós iremos às ruas. Trabalharemos em 2011 para sensibilizar, formar e mobilizar mulheres em todo o país. Defenderemos esta pauta na III Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres; no processo da Reforma Política; nas marchas que faremos a Brasília; junto à Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular; em nosso diálogo com o governo federal e com a Presidenta Dilma.

Esta é uma luta estratégica para as mulheres e fundamental para a democracia brasileira. Dela não ficaremos fora.

Brasil, julho de 2011.

Adesões

Instituto Patrícia Galvão – Mídia e Direitos
Geledés – Instituto da Mulher Negra
Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social
Liga Brasileira de Lésbicas

Mulheres no Cinema

15 fev

Texto originalmente publicado no The Hathor Legacy[i]

Tradução: Verônica Silveira.

Porque as escolas de cinema para roteiristas não passam no Teste Bechdel

Por Jennifer Kesler

Enquanto eu escrevia “Female characters exist to promote male leads for network profits”[i], eu percebi algo que eu nunca tinha reunido em tantas palavras. E este algo é importante o bastante para merecer seu próprio artigo (obrigada, Bellatrys!), então, aqui está: meus professores de roteiro me ensinaram a não escrever scripts que passam no Bechdel/ Mo Movie Measure/ “Dykes to Watch Out For”[ii] teste, e eu posso dizer a vocês o motivo, e este motivo precisa ser conhecido.

O “Dykes to Watch Out For” teste, formalmente conhecido como o “Mo Movie Measure” teste e Bechdel Teste, tem seu nome originado da tirinha em quadrinho desenhada por Alison Bechdel – mas Bechdel dá os créditos para uma amiga chamada Liz Wallace, então talvez o teste devesse ser chamado de Liz Wallace Teste…? Bom, o teste é mais simples do que o seu nome. Para passar nele o filme deve ter o seguinte:

1) ao menos duas personagens mulheres com nomes, que:

2) falam uma com a outra:

3) sobre algo que não seja homem.

Tão simples, e mesmo assim, se você verificar todos os seus filmes favoritos (e muitos de seus programas de TV favoritos, embora exista um pouco mais de variedade na TV), você achará poucos filmes que passam neste teste.

Isso não é coincidência. Isso não é porque não existem mulheres o bastante atrás das câmeras (não há, mas esta não é a razão). É contra isso que nós nos mobilizamos (e para todos que requisitaram um post que sumarize minha experiência em filmes para que tenham um link de referência, aqui está).

Quando eu comecei a ter aulas de cinema na UCLA,[iii] eu fui rapidamente informada de que eu tinha o necessário para seguir nesse caminho. Eu era uma escritora muito boa, mas mais importante (é, você não pensou que escrever bem era o principal pré-requisito nessa indústria, pensou?) eu entendia o processo de reescrever para lidar com o orçamento (e outras) limitações. Eu não hesitava em excluir minhas mais queridas cenas quando necessário. Eu também fazia um monte de pesquisa e me educava para escrever bons filmes de ação/aventura que seriam significativamente baratos para filmar – isso era puro ouro.

Havia apenas um pequeno problema.

Eu tinha que entender que a audiência só queria protagonistas brancos, heterossexuais e masculinos. Asseguravam-me de que enquanto eu criasse homens brancos e heterossexuais proeminentes em meus scripts, eu ainda poderia cunhar personagens inovadoras com outras características (fascinantes, mulheres importantes, homens negros, etc.) – desde que estas personagens não distraíssem a audiência de homens brancos que realmente pagam para assistir filmes.

Eu fiquei aturdida. Eu havia me mudado de um Estado que ainda abrigava comícios da Ku Klux Klan[iv] para encontrar formas ainda mais insidiosas de intolerância na Califórnia – administrando uma indústria que molda toda a nossa cultura. Mas eles continuavam a me dizer que muitos cineastas gostariam de ver as mesmas mudanças que eu, e se eu fizesse o que era necessário para entrar na indústria e obtivesse algum poder, então eu poderia começar a insistir e talvez, apenas talvez, mudanças poderiam finalmente acontecer. Então eu dei uma chance aos conselhos deles.

Apenas para aprender que ainda havia algo errado com minha escrita, algo imprevisto para meus professores. Meus roteiros tinham múltiplas mulheres com nomes. Que falavam umas com as outras. Sobre algo que não era homens. Aquilo, eles explicavam nervosamente, não estava certo. Eu perguntei o porquê. Bom, seria mais correto dizer que eu pedi gentilmente por uma minuciosa e lógica explicação que fizesse sentido para uma mudança (eu encontrei: a “audiência não vai assistir a mulheres!” argumento muito questionável, com suas diferentes razões e parâmetros).

No início eu obtive muitas tentativas de respostas sobre o quando isso desviava do ponto principal da história. Eu passei por isso com mais de um professor, mais de um profissional da indústria. Finalmente, eu consegui uma abençoada explicação de um pró-indústria: “A audiência não quer ouvir um monte de mulher falando sobre qualquer coisa que as mulheres falam”.

“Nem mesmo se isso avançar com a história?” Eu perguntei. Esta é a regra número um na escrita de roteiros, embora você não perceba isso assistindo a muitos filmes: todo momento em um script deve revelar outro pedaço da história e manter o filme em movimento.

Ele apenas me olhou embaraçado e disse “quero dizer, isso não é como eu vejo, mas como eles enxergam”.

Certo. Um punhado de autoindulgentes pretensos liberais não quer que você pense que eles rotineiramente repudiam mulheres enquanto assinam cheques para o Greenpeace.[v] Ah não – eram eles. A audiência. Todos esses idiotas pouco sofisticados para os quais nós efetivamente trabalhamos quando fazemos filmes. Eles estavam nos levando a fazer essas coisas horríveis. Eles, o homem por trás da tela. Eles, o coelho invisível de seis pés de altura. Nós sabíamos que eles existiam porque eles estavam nas planilhas com números, e não importa como os números os mostrem, eles nunca pensam: “Oh! Ei! olhe – homens e meninos estão vendo Sarah Connor[vi] e Ellen Ripley[vii] como se não fosse grande coisa o fato delas serem moças, não caras”. Eles sempre, de alguma forma, entendem: “Oh! Ei! olhe – estes efeitos/Arnold é tão incrível, homens e meninos assistem a esses filmes a despeito da existência de algumas moças em papéis principais”

De acordo com Hollywood, se duas mulheres aparecem na tela e começam a falar, o cérebro da audiência-alvo masculina se desconecta, pois assume que as mulheres estão falando sobre polimento das unhas ou sapatos, ou sobre algo que não pertence à história. Apenas se eles escutam o nome de um homem na história eles voltam à atenção para o filme. Por ter mulheres falando umas com as outras sobre algo que não fossem homens, eu estava “perdendo a audiência”.

Eu estava?

Há, certamente, ainda homens neste mundo que param de prestar atenção nas mulheres quando nós falamos, mas – como eu e outros estudantes apontamos – isto está ficando menos comum a cada geração, e nós não deveríamos estar mirando para geração mais jovem? Esses homens jovens cresceram com mulheres transmitindo notícias na rede nacional (ainda me lembro do quanto isso era raro), prescrevendo seus remédios, representando pessoas no tribunal, distribuindo hipotecas e empréstimos. Estes meninos não entenderiam os filmes do início dos anos 80, onde mulheres tinham promoções negadas porque “o cliente quer lidar com homens” ou “quem levaria a sério uma mulher médica/advogada/policial?” Muitas dessas crianças precisariam que fosse explicado a elas porque Cagney & Lacey[viii] foi revolucionária, já que muitas das mães desses jovens trabalham em campos antes dominados por homens.

Nós temos toda uma geração muito jovem para se lembrar do porquê de termos precisado de uma segunda onda feminista, para reivindicar ruidosamente. E aqui estamos nós aderindo a regras dos anos de 1950. Eu chamei isso de estupidez, e deixei o cinema pelo bem, optando por lutar contra o sistema pelo lado de fora. Não há como crer que Hollywood realmente acreditava no que estava dizendo sobre os meninos que cresceram com Ellen Ripley e Sarah Connor como heroínas de ação, logo, não há como mudar o sistema por dentro dele. Eu concluí que Hollywood está dominada por eternos meninos pré-adolescentes que fazem os filmes que eles gostariam de assistir, e usam a “audiência-alvo” – uma construção baseada em verdades parciais e matemática distorcida – para perpetuar seus próprios desejos. Como nunca cresceram, eles ainda veem as mulheres como Peter Pan via Wendy: uma fascinante estranha a ser capturada, entesourada e encerrada em uma gaiola dourada. Onde nós não falamos. Umas com as outras. Sobre algo que não seja homens.


[i] Numa tradução de sentido: Personagens femininas existem para promover a rede de lucros dos homens.

[ii] Optei por manter as designações do teste em inglês.

[iii] UCLA – University of California, Los Angeles (Universidade da Califórnia, Los Angeles)

[iv] Ku Klux Klan – Organizações racistas dos Estados Unidos notórias por seus atos violentos contra a população negra.

[v] Famosa ONG de defesa ambiental.

[vi] Uma das personagens principais do filme “O Exterminador do Futuro”

[vii] Personagem principal da série de filmes “Alien”

[viii] Série do início dos anos de 1980 que trata da vida de duas mulheres policiais.


[i] O The Hathor Legacy é um projeto muito interessante iniciado por Jennifer Kesler (autora do texto aqui traduzido) que analisa o papel das mulheres e das relações de gênero em filmes, programas de televisão, desenhos e outras mídias.