LBL entrevista – Edlene Paim (LBL-BA)

29 maio

Iniciamos no nosso Blog Nacional uma rodada de entrevistas com mulheres da LBL de todo o Brasil. Assim poderemos conhecer um pouco mais sobre a rica história dessas mulheres que ousam batalhar pela visibilidade das mulheres que amam mulheres, que ousam reivindicar nossos direitos e enfrentar o machismo, a misoginia e a lesbofobia.

Nossa primeira entrevistada é Edlene Paim, integrante da Liga Brasileira de Lésbicas do Estado da Bahia.

LBL – Quem é Edlene Paim? Fale um pouco sobre você!

Edlene Paim – Tem uma máxima lacaniana que diz: “Sou, onde não penso”, ou seja, “Penso onde não sou, portanto, sou onde não me penso”. Sou de uma família de 7 filhos. Minha mãe é conhecida na cidade como Maria do Sonho, é que, ela para ajudar meu pai a sustentar a família fazia uns bolinhos chamados “sonhos” que eu e meus irmãos vendíamos em escolas e nas praças da cidade. Meu pai funcionário público estadual era a calmaria em pessoa; minha mãe, como eu, corpo mexido, sempre em ação.

Diferente dos outr@s seis filhos da casa – tod@s empresári@s do ramo do comércio – sempre fui ligada aos movimentos sociais e à política, “Além de trabalhar como empacotadeira nas Casas Bahia”. Fui Sindicalista, Assessora Parlamentar de Deputado Estadual, fiz parte do movimento da Rede de Educadores Ambientais e de Grupos de Mulheres. Aos 20 anos ingressei no Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras, e anos depois lancei-me candidata a vereadora, tendo na primeira eleição ficado na suplência e, finalmente em 2008 fui eleita vereadora do mandato “Fazendo a Diferença”.

Em 2010 entrei para a LBL e é desse lugar que falo agora, enquanto Lésbica Negra e Política.

Como você conheceu a LBL? Por que decidiu integrar nossa articulação nacional de lésbicas feministas?

Costumo ir a São Paulo pelo menos 2 vezes por ano; encontrar amig@s, fazer umas compras, degustar as delícias dos restaurantes Japoneses da Liberdade. Foi justamente numa dessas idas e vindas para Sampa numa Roda de Prosa com amigas do movimento feminista que ouvi falar pela primeira vez da LBL. Foi um caso de amor à primeira vista; isso foi em junho de 2010; logo depois fui ao RN participar do Encontro Nacional da Liga e lá, em meio a um rico debate político, fiz a minha adesão à Rede de Lésbicas e Mulheres Bissexuais em movimento por todas as dimensões dos Direitos Humanos.
Tem um pensamento de Paulo Freire que diz: “Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes” .
Esta crença que tenho em Paulo Freire foi o primeiro motivo pelo qual resolvi aderir à LBL, e as discussões políticas em torno da minha adesão à Rede por ser vereadora, demonstraram coerência com os princípios descritos na Carta da Liga. Para além das questões colocadas, uma das coisas que mais me chamou a atenção na LBL foi a força/disposição que cada companheira tem para a atuação militante em vários espaços, e a forma como essas ações interferem/transformam esses espaços, como fora relatado em diversas experiências compartilhadas no referido encontro.
O segundo aspecto foi a percepção que tive sobre a forma como a LBL, pelo que é descrito na Carta de Princípios, manifesta enquanto preocupação primeira o debate acerca de como a sociedade constrói, interpreta, sente e vive os Direitos Humanos.
Esses e outros elementos construíram minha identidade/desejo de fazer parte da Liga.

Quais são as principais ações da LBL na Bahia?

A Liga Brasileira de Lésbicas da Bahia existe desde muito tempo, talvez 2004. A minha caminhada junto a ela acontece a partir de junho de 2010. Vou falar desse tempo, sem a intenção de apagar a outra parte da história.

Falar é contar de suas lembranças ou mesmo de seus esquecimentos, mas também é enunciar, produzir efeito de sentido que é singular a cada um a partir do desejo que o constitui. Assim quero falar a partir de mim, das minhas vivências/desejos/da minha atuação individual e coletiva.

Como disse, entrei na LBL no Encontro Nacional do Rio Grande do Norte. Voltando desse encontro, fui indicada e assumi aqui na Bahia a Articulação Estadual da Liga. Ao aceitar essa empreitada era claro para mim – também para as outras companheiras – a necessidade de propor ações que primassem pelo fortalecimento da Liga Baiana, ações essas bem fundamentadas.

Diante desses desafios algumas ações se faziam necessárias para chegarmos a vencer os mesmos: primeiro, adotamos uma postura de fazer pelo menos uma reunião presencial mensal, promovemos alguns momentos de avaliação e planejamento que culminaram no Plano de Ação para 2011; também promovemos Rodas de Prosas para sensibilizar outras militantes, o que culminou com a adesão de mais 4 valorosas companheiras.

Três pilares fundamentam hoje as ações da LBL/BA – Planejamento – Visibilidade – Interiorização.

Dentre nossas principais ações estão: implantação do “Cine Liga em Movimento” que percorre o interior da Bahia promovendo discussão acerca da heteronormatividade na construção dos corpos, construindo espaços de socialização LGBT, a partir da concepção do cinema como prática social; Promoção das campanhas “Não bata, eduque para a diversidade” e “Saúde da Mulher Lésbica”, ambas objetivando ampliar o debate sobre a livre orientação sexual e combate à violência, enquanto direitos humanos; a terceira questão mais importante no que diz respeito às ações da Liga Baiana é a forma como estamos conseguindo dar visibilidade às nossas ações, ocupando espaços de discussão tanto presencial, como em redes sociais que pautam o debate sobre os direitos humanos e a livre orientação sexual.

Edlene, você tem uma atuação política de grande importância no Município de Coração de Maria. Coração de Maria é um lugar muito pouco conhecido no Brasil, onde as grandes capitais sempre ganham destaque nos noticiários e até nas ações do poder público. Gostaria que você falasse um pouco sobre o município e também nos contasse mais sobre suas ações na região.

A partir dos anos 70 Coração de Maria foi a segunda maior produtora de abacaxi do Brasil. Ao longo do tempo, por causa do uso inadequado de insumos industriais na produção e pela carência de políticas públicas perdemos essa posição e herdamos problemas ambientais que se multiplicam ao longo da história; a morte da maioria das nossas nascentes, o desmatamento da mata ciliar e a poluição das águas dos rios, lagos e lagoas são alguns dos fatores que adoecem a natureza e as pessoas do local.

Segundo alguns historiadores, passou aqui pela cidade, Maria Quitéria e seu bando, ensinando a arte da rebeldia. Como Maria Quitéria, o povo de Coração de Maria tem inteligência clara e percepção aguda, e, em meio as adversidade, consegue driblar as pegadinhas da vida e ser acima de tudo um povo que vive o presente com determinação, transformando seu dia-a-dia em busca de melhores condições de vida.

Ainda hoje, dos 23 mil habitante de Coração de Maria cerca de 70% vive da agricultura de subsistência. E é com esse grupo que, prioritariamente, o mandato “Fazendo a Diferença” vem atuando visando o empoderamento político, social, econômico, cultural e ambiental das comunidades do interior e da sede.

Com isso conseguimos fomentar organizações autônomas e interessadas nas mudanças estruturais do município tais como: mudança de comportamento em relação ao ambiente, com a implantação de Programa Sala de Aula ao Ar livre – Permacultura na Escola; programa de formação em Economia solidária – cooperativismo; visibilidade para as organizações de mulheres e pessoas LGBT, promovendo debates sobre gênero e livre orientação sexual; fomento às atividades culturais das comunidades; e em nível regional, articulação territorial nas políticas de Educação, Cultura, Agricultura Familiar, dentre outras.

Edlene, já faz tempo que se fala no Brasil sobre a Reforma Política. Todavia há poucos debates significativos sobre isso com a população, as conversas ficam muito circunscritas nos âmbitos dos poderes políticos ou nos círculos intelectuais. Você poderia explicar o que é a Reforma Política?

Quando falamos em Reforma Política, precisamos ter entendimento que existem dois modelos de Reforma propostos: A Reforma Política que convida a sociedade ao debate e a Reforma Política da qual essa sociedade é apenas observadora/expectadora, já que as discussões são balizadas a partir daquilo que é apresentado pela mídia. É a Reforma Política centrada na lógica de se pensar a partir da perspectiva e do olhar apenas dos parlamentares e dos partidos políticos. Nesse tipo de reforma, a sociedade não teria poder algum sobre as discussões/deliberações, ou seja, o povo ficaria à margem de tudo.

A nós da LBL interessa discutir a Reforma Política a partir das discussões apresentadas pela Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político – plataforma que ajudamos a construir e assinamos – onde o debate e a valorização da sociedade acontecem a partir do reconhecimento da força dessa sociedade para interferir no debate.

Essa proposta apresentada pelos movimentos sociais está estruturada em cinco grandes eixos:
1. fortalecimento da democracia direta;
2. fortalecimento da democracia participativa/deliberativa;
3. aperfeiçoamento da democracia representativa;

4. democratização da informação e comunicação; e
5. transparência e democratização do Judiciário.

A partir desses eixos poderíamos definir a Reforma Política proposta na Plataforma dos Movimentos Sociais, como uma iniciativa de caráter popular que coloca no centro do debate não apenas o processo eleitoral e a representação, mas também o poder, suas formas de exercício e controle, e principalmente o debate sobre quem tem o poder de exercer o poder.

Qual é a importância da Reforma Política?

A primeira grande questão em torno da importância da Reforma Política é poder pensar junto com a sociedade sobre uma questão aparentemente simples: quem tem o direito de assumir o poder?  Afinal, todo o poder, inclusive o da representação, é uma delegação da sociedade. Então, a importância da Reforma Política que queremos é a que propiciará o transcender da Democracia Representativa para a Democracia Participativa.

A segunda grande questão que poderíamos colocar ao analisar a importância da Reforma Política é, com certeza, a garantia de representações dentro do Parlamento de todos os segmentos defendendo seus mais legítimos interesses, fazendo com que acorra uma mudança na forma de fazer e pensar a política, assim como o próprio exercício do poder e o seu controle.

A terceira e última questão que quero colocar para definir a importância da Reforma Política é que teremos, em médio prazo, uma mudança, na cultura política. O controle social possibilitará à população cobrar e acompanhar mais os seus representantes, e cobrar dos partidos coerência nas suas promessas de campanha e no seu modo de agir. Com isso, as políticas prioritárias para a sociedade, deverão ser também para os partidos e governo.

Quais são os principais entraves para a aprovação da Reforma Política?

A maior dificuldade para a aprovação da reforma política será a resistência “dos que estão com medo de mudar”, e “não querem dividir o poder”. A grande maioria dos parlamentares, representantes das oligarquias, não tem interesse em alterar o sistema eleitoral porque são beneficiados por ele, seja pela forte presença de capital em suas campanhas, seja pelas negociações com outros partidos e candidatos.

O que você considera crucial para essa Reforma?

Podemos dizer que a questão crucial na Reforma Política é garantir para além dos interesses das oligarquias, a representação dos segmentos mais excluídos dos espaços políticos e de poder (como as mulheres em geral, as negras, e as lésbicas em particular), o financiamento público de campanha e a garantia de instrumentos de consolidação da Democracia Participativa.

Como a Reforma Política pode beneficiar as mulheres que amam mulheres?

A participação política das mulheres em geral, das negras e lésbicas em particular, é um dos grandes desafios a ser garantido na Reforma Política. O sexismo, o racismo e a lesbofobia são fatores estruturantes das desigualdades sociais e da manutenção dos padrões machistas e sexistas que marcam a sociedade brasileira. A forma como está organizada a estrutura política atual no Brasil reforça a necessidades de ampliarmos as conquistas da cidade (será que é cidadania?) lésbica feminista pelo fim de toda e qualquer forma de opressão de classe, gênero, raça/etnia, orientação sexual, geracional e outras.

A Reforma Política beneficia as mulheres que amam outras à proporção que, a partir da intervenção crítica do movimento lésbico nas discussões, propõe-se outros paradigmas.

A adoção de lista partidária com alternância de sexo e observância de critérios étnico/raciais, geracionais, LGBT, favorece agendas determinantes para a promoção de populações renegadas pelo sistema hegemônico, a exemplos das mulheres que amam outras.

“Não existe Democracia sem igualdade de direitos”. Portanto, esse é outro ponto discutido na Reforma que traz benefícios para as mulheres que amam mulheres.

Como você avalia a participação das mulheres na Reforma Política?

A participação das Mulheres nos espaços de poder ainda é pouco representativa. E não é diferente quando o assunto em pauta é a política, e, mais, ainda, a Reforma Política.
Pesquisas recentes mostram que o Brasil até 2010, entre 187 países, ocupava o centésimo segundo lugar no ranking, atrás de vários países sul-americanos. Somos apenas 46 mulheres na condição de deputadas federais, ou seja, menos de 10% da Câmara Federal e apenas 12 na condição de senadoras, não alcançando 15% no Senado federal.
Na Argentina, por exemplo, as mulheres conquistaram avanços significativos em relação ao Brasil. Nesse país antes da aprovação da Lei na cotas que prevê punições severas ao seu descumprimento, a proporção de mulheres na Câmara de Deputad@s era apenas de 7%, saltou na primeira eleição, já sob a nova lei para 21%. Hoje a presença da mulher no parlamento é superior 40%.
Recentemente, o Centro Feminista de Estudos e Assessoria, o CFEMEA realizou pesquisa junto aos parlamentares da legislatura 2007-2010 sobre os direitos das mulheres e 60% dos parlamentares entrevistados não concordaram em estabelecer punições aos partidos que não cumprissem as cotas de mulheres nas chapas proporcionais. 72% discordavam em adotar lista fechada com alternância de sexo.
Em linhas gerais, essas pesquisas demonstram a resistência de parte significativa dos parlamentares à ampliação da participação política das mulheres. Analisando, os exemplos bem sucedidos de países como a Argentina, percebemos que, se desejamos uma reforma política inclusiva e que leve em consideração as demandas femininas por participação política e de acesso aos espaços decisórios, necessitamos de muita ousadia, mobilização e organização.
Embora a participação das mulheres venha crescendo, temos plena consciência, que ainda sim é uma presença frágil e pouco representativa e em grande medida subordinada a cultura patriarcal.
Por fim, quero reforçar que precisamos mobilizar toda a sociedade, especialmente as mulheres, para entrarem na defesa de alguns pontos que sob a minha ótica garantirão uma aproximação entre a atual situação do Brasil comparada à situação da Argentina
Primeiro, a defesa de temas prioritários como o financiamento público de campanha; lista fechada preordenada, com paridade entre mulheres e homens, com recorte étnico-racial, de gênero e de orientação sexual e fidelidade partidária.
Em segundo lugar, o entendimento de que a reforma política, avançará mais ou menos, a depender do nível de mobilização e pressão social que conquistarmos. As conquistas que teremos dependem do poder de mobilização que estivermos dispostas a conquistar. Este é ponto chave desta questão.

Edlene, muito obrigada pela entrevista! Você gostaria de fazer algumas considerações finais?

Sou eu quem agradece. Primeiro pela paciência na espera pelas minhas simples reflexões acerca de um tema tão caro. Depois, agradeço pela confiança que a LBL dispensou me indicando como sua representante na Plataforma da Reforma do Sistema Político, espaço onde pude viver experiências importantes para minha atuação política dentro e fora da Liga.

Edlene Paim (LBL-BA)

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4 Respostas to “LBL entrevista – Edlene Paim (LBL-BA)”

  1. MARIA AURENISIA ALVES NUNES (MAGONA) 29 de maio de 2011 às 10:46 #

    A entrevista da companheira Edlene esta maravilhosa ela falou tudo. E suas palavras nos fortalece muito nossa luta.

  2. Ariane 3 de junho de 2011 às 2:54 #

    Prazer em conhecer, Edlene! Aprendi lendo sua entrevista, muito lúcida, tranquila, parecida com você.
    Grande abraço!
    Ariane

    • edlene paim 8 de junho de 2011 às 17:25 #

      Queridas companheiras Magona e Ariane,

      Valeu a mensagem! As palavras de vocês me alimentam! Me fazem seguir em frentes apesar das (in)certezas!
      Um grande abraço
      edlene paim

  3. Moroni 16 de junho de 2011 às 12:12 #

    Prezada Edlene

    parabens pela entrevista. Muito boa. Gostei muito.
    Bjs
    Moroni

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