O MÉDICO MONSTRO

21 maio

Quando nos submetemos a tratamentos médicos depositamos nossas vidas e confiança em profissionais de saúde. Ninguém espera que estes profissionais que deveriam nos ajudar possam ser capazes de nos causar qualquer dano, principalmente especialistas renomados. Ledo engano. O caso do médico Roger Abdelmassih trouxe à tona a infâmia e crueldade que pode estar por trás daqueles que exercem a valorosa profissão médica.

Roger Abdelmassih era um conceituado médico especialista em reprodução assistida. Possuía uma clínica num bairro de luxo em São Paulo e cobrava verdadeiras fortunas para ajudar mulheres com vontade de serem mães, mas com dificuldades para engravidar. Em 2009 estourou o escândalo. O senhor Abdelmassih, tirando proveito da confiança a ele dada pelas mulheres, abusando da situação de vulnerabilidade em que muitas estavam por causa de sedativos ministrados por ele mesmo, usando da força física, estuprou dezenas de mulheres.

Julgado e condenado a 278 anos de prisão, o médico ganhou o direito de recorrer ao processo em liberdade. Direito este que foi justamente questionado quando a juíza Cristina Escher, da 16ª Vara Criminal de São Paulo, determinou a prisão do “médico”. Por certo que a juíza Cristina Escher estava correta em pedir a prisão de Abdelmassih, que já agia para permitir sua fuga do Brasil. Abdelmassih pediu a renovação do seu passaporte à Polícia Federal com a evidente intenção de fugir do país e escapar da punição por seus crimes. Nada de surpreendente! O que esperar de um monstro covarde que violenta mulheres? O que esperar de um sujeito que estupra mulheres sedadas e sem qualquer chance de defesa?

Pois os advogados pagos pelo rico Abdelmassih pediram Habeas Corpus do “médico” no Supremo Tribunal Federal e foram prontamente atendidos pelo Ministro Gilmar Mendes. Em posse do Habeas Corpus, Abdelmassih fez o que já planejava fazer, escapou. Agora é considerado foragido pela justiça brasileira. Mas por ter uma considerável fortuna, por ser um homem influente – o Habeas Corpus que obteve na mais alta corte brasileira é prova cabal disso – e pela possibilidade de ter fugido para o Líbano – país com poucas relações diplomáticas com o Brasil, o que dificulta processos de extradição –, é bastante provável que Abdelmassih saia impune.

Abdelmassih é mais uma exemplo da enorme dificuldade da justiça brasileira em punir criminosos notórios, mas com alto poder aquisitivo. Ainda, o caso de Abdelmassih tem mais uma peculiaridade já que o homem cometeu crimes sexuais.

Os crimes sexuais só passaram a receber atenção recentemente, para se ter uma idéia, só em 2002 a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu a violência sexual como: ” todo ato sexual não desejado, ou ações de comercialização e/ou utilização da sexualidade de uma pessoa mediante qualquer tipo de coerção”.[i] O reconhecimento tardio de uma situação catastrófica antiga. Uma pesquisa realizada em 2001 pela Fundação Perseu Abramo com mulheres de todo o Brasil indicou que 43% delas relataram ter sofrido algum tipo de violência sexual. Mesmo assim os dados não são seguros já que muitas mulheres vítimas de violência sexual não falam sobre isso e tampouco o declaram em pesquisas. A vergonha, o medo, os impactos psicológicos são fatores importantes a serem ponderados diante do silêncio sobre esse grave problema. E isso é bastante concreto, o Ministério da Saúde indica que menos de 10% dos casos de violência sexual são denunciados nas delegacias.[ii] E para piorar a situação, poucos desses crimes denunciados são efetivamente investigados e muitos criminosos não são punidos.

Se já há uma impunidade de agressores sexuais generalizada, imaginem a impunidade de agressores sexuais ricos e influentes?

Há de se acrescentar nessa triste equação o estigma que ainda recai sobre as mulheres vítimas de abuso sexual. Quando mulheres fazem denúncias não é incomum serem perguntadas sobre seu comportamento ou vestimenta, como se de alguma forma fossem culpadas pelo abuso. Em janeiro deste ano, no Canadá, um oficial de polícia disse em uma palestra que as mulheres não deveriam se vestir como “vadias” e assim evitariam sofrer estupro. Os comentários infelizes do oficial desencadearam uma onda de protestos que ganhou o título de “SlutWalk”, ou marcha das vadias, numa tradução livre.[iii] Recentemente o “humorista” do programa CQC da Band, Rafinha Bastos, se sentiu no direito de fazer piadas sobre o estupro, alegando que só mulheres “feias” eram estuprados e por isso os estupradores deveriam ganhar um abraço. Sim, um abraço, pois segundo a lógica torta do “humorista” as mulheres deveriam se sentir honradas por terem sido violentadas.

A impunidade de Abdelmassih não é uma exceção a duas regras: a incompetência do judiciário para punir criminosos ricos e a incompetência do judiciário para punir criminosos sexuais. Enquanto dezenas, milhares de mulheres, são obrigadas a conviver com a dor de terem sofrido abusos sexuais, Abdelmassihs são libertados por Gilmares Mendes, Rafinhas Bastos acham graça disso tudo e uma horda de tapados bate palma.


[i] SOUSA, Cecília de Mello & ADESSE, Leila. Violência Sexual no Brasil: perspectivas e desafios. Brasília: Ipas, 2005. p.13.

Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/violencia_sexual_brasil.pdf

[ii] Op.Cit. p.25-26.

[iii] Saiba mais aqui: http://www.slutwalktoronto.com/ (em inglês)

*Por: Verônica Silveira (LBL-SP)

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