Onde está o mal?*

30 jul

*Texto de Lívia Pinheiro (LBL-SP), originalmente publicado no “Lívia e Verônica Maat blog”.

Aproveitando a maré de indignação que me assolou, fomentada por lembranças passadas, retomo uma reflexão que tenho feito há algum tempo sobre por que tanta gente se sente desconfortável com a idéia de duas pessoas do mesmo sexo se casando e tendo filhos.

Dividi tais pessoas em grupos de acordo com o motivo da abominação. O grupo dos religiosos a princípio possui motivos bem estabelecidos para pensar como pensa. Desconsiderando as já discutidas – mas amplamente desconhecidas – possíveis interpretações alternativas para passagens bíblicas que supostamente condenam a homossexualidade, o fato é que padres e pastores, com raríssimas exceções, constantemente doutrinam suas ovelhas a assumir que o deus delas considera pecado amar alguém do mesmo sexo. A inquestionabilidade característica dos motivos pelos quais algo é pecado torna a homofobia religiosa enfadonha e não passível de argumentação. Em suma, é pecado porque deus quis assim, e ponto final.

É no grupo dos argumentos não religiosos que foco minha discussão. O interesse advém do enorme apego à rejeição da idéia de dois iguais se casando e tendo filhos, especialmente quando se percebe a inexistência de justificativa que sustente tal rejeição. Tal apego pode ser explicado por algum dos motivos também já apresentados para a existência da homofobia, mas creio que este motivo não seria suficiente por si só, não fosse nossa obstinação intrínseca em não aceitar que estamos errados. Por algum motivo curioso, que certamente deveria ser pesquisado, esta obstinação parece ser especialmente forte em situações que envolvem diversidade – de raças, de etnias, de orientação afetiva, de qualquer coisa.

Exemplificando com uma confissão envergonhada: não tenho a menor dúvida de que inexiste superioridade racial de qualquer natureza. No entanto, este pensamento é derivado, uma vez que cresci, assim como todos nós, envolta em incontáveis comentários e atos racistas por parte de professores, colegas, familiares, mídia e desconhecidos. Mas, mesmo tendo adquirido a noção plena do absurdo racista, não pude deixar de ter uma reação de espanto ao descobrir que Milton Santos, o famoso geógrafo, era negro.

Portanto, hipocrisias à parte, o que pretendo não é extirpar o desconforto geral para com os homossexuais. O exemplo acima mostra bem que isso infelizmente é muito mais difícil do que parece. Além disso, todos têm o direito de se sentirem desconfortáveis (e este direito para por aí) com o que quiserem. Mas sentir-se desconfortável com homossexuais felizmente não é incompatível com reconhecer a supressão de direitos que nos acomete. E compreender que gays deveriam ter os mesmos direitos civis dos demais cidadãos, assim como entender que racionalmente não há nada que torne um negro inferior a um branco, felizmente não requer uma capacidade intelectual extrema.

Começando pelo argumento jurídico: nossa Constituição declara a igualdade de direitos para todos os cidadãos como um de seus princípios fundamentais. Este provavelmente é um princípio compartilhado pelas constituições de grande parte dos países do ocidente. No entanto, somente em cerca de 23 deles dois adultos do mesmo sexo podem se unir legalmente, se assim o desejarem. E somente em uns 13 deles este mesmo casal pode adotar crianças em conjunto. O direito fundamental à igualdade vem sendo sistematicamente ignorado em nome da “moral e dos bons costumes”. Em outras palavras, o conforto de uns é preservado em detrimento do direito de outros, em pleno desacordo com um princípio supostamente fundamental. E os que se revoltam contra isto são gayzistas lutando para impor seus caprichos pérfidos à sociedade.

Ora, a sociedade possui uma particular ojeriza a gays. A amplitude de tal discriminação fatalmente atingiria filhos de pais homossexuais, de modo que parece ser um dever moral a desaprovação de qualquer tentativa de terem filhos biológicos, e mais ainda, tentar impedi-los de adotar. Certamente há e continuará havendo, por muito tempo, discriminação contra filhos de homossexuais. Do mesmo modo, há e continuará havendo, talvez por um tempo menor, discriminação contra negros. E ninguém sugere que eles sejam impedidos de terem filhos por causa disto. O mesmo raciocínio pode perfeitamente ser aplicado a famílias multirraciais, a pais de nacionalidades diferentes, de idades muito diferentes, deficientes e mães solteiras.
Mas nos casos supracitados há a figura do homem e da mulher, que é fundamental para o crescimento de uma criança mentalmente saudável, alega-se. Isto em todos, menos os casos da família gay e das mães solteiras. Esta é, suponho a objeção mais freqüente à homoparentalidade. Ela baseia-se no pressuposto de que crianças criadas por somente um dos sexos não possuirá referência do outro. Este pensamento, além de empiricamente falho, é estranho.

Primeiro porque o advento da mãe solteira já é antigo o suficiente para as pessoas perceberem que um menino criado sem o pai não deixa de se tornar um homem depois de alguns anos. Há, é verdade, as duvidosas alegações de que estes meninos se tornam afeminados, o que não seria um problema em si, não fosse a notória preocupação que isto causa. Com as preferências do público feminino heterossexual tendendo cada vez mais para homens mais femininos, como parece ser o caso, creio que este suposto “problema” vai passar a ser cada vez mais circunscrito às rodinhas de demonstração de masculinidade entre homens.

Mas a estranheza do argumento não vem somente do fato de ele já ter sido rechaçado pelas evidências. Ela vem do fato convenientemente ignorado de que nossa sociedade é composta por mais do que o núcleo familiar, o que permite um amplo contato de qualquer indivíduo com os mais variados tipos humanos, seja na escola, na vizinhança, na casa de amigos ou na TV. Mas se o problema é a falta do segundo sexo dentro de casa, em nome da coerência, a cruzada contra a homoparentalidade deve necessariamente abrangir, nas mesmas proporções, também mães solteiras e pais viúvos que não pretendem se casar novamente. Deviam também rever a lei que trata da adoção, pois ela permite que pessoas solteiras adotem!

A segunda causa de estranheza vem de uma constatação que certamente jamais foi cogitada por qualquer defensor do argumento da importância das figuras masculina e feminina. Ora, masculino e feminino são construções sociais, providas de seus respectivos papéis, destinadas, respectivamente, a homens e mulheres. O que parece importar tanto para os defensores deste argumento não é o sexo da pessoa em si, mas seu papel social. O crucial nessa história não é crescer em um lar que tenha um macho e uma fêmea pelo simples fato de serem macho e fêmea. O importante é que a criança aprenda qual papel lhe cabe, dependendo de seu próprio sexo.

Se aprender o papel é tão importante, devo lembrar que há um terceiro papel possível completamente ignorado por esta lógica: o do/da travesti. Dou uma pausa para o leitor arregalar os olhos ou se contorcer, conforme preferir; continuo no próximo parágrafo.

Naturalmente não é por acaso que o papel de travesti não é nem cogitado dentre as coisas que uma criança saudável deve aprender. Aliás, quanto mais tempo ela ficar sem saber que tal abominação existe, melhor. E, no entanto, mesmo na total ignorância de que mesmo em sonho  isto possa existir, houve, há, e continuará havendo travestis. Se isto por si só já não depõe cabalmente contra a hipótese da necessidade de um modelo para o papel a ser seguido, aguardo ansiosamente reflexões em contrário a este respeito .

Por fim, uma hipótese de base empírica desconhecida que diz que filhos de gays serão gays. Desconsiderando momentaneamente a possibilidade de haver importante influência genética no comportamento afetivo-sexual humano, tal afirmação é desprovida de qualquer fundamento, teórico ou empírico. Considerando a influência genética, dada a complexidade de nossos comportamentos e nosso colossal desconhecimento a respeito do assunto, a afirmação anterior é um grande chute no escuro. Qualquer que seja o caso, então, a afirmativa acima é uma especulação baseada em nada que usa o estigma carregado pela homossexualidade para estigmatizá-la mais ainda. Mesmo que ela tivesse algum fundamento, e pais gays só gerassem filhos gays, (pais hetero só geram filhos hetero?), esta especulação ainda precisaria responder uma pergunta crucial: o que há de errado em ser gay?

Para mim está perfeitamente claro que o problema a ser resolvido é a intolerância geral com o que foge do padrão, e não a fuga do padrão em si. Esta, desde que não prejudicando ninguém, como é o caso dos gays, seria completamente inócua, não fosse a intransigência dos demais. O problema a ser resolvido não é a orientação sexual do filho, que envergonha os pais, mas a vergonha em si, que não possui absolutamente nenhuma razão de ser, a não ser a de que “sempre foi assim”. Nossa escala de tempo, medida em décadas, e nosso conhecimento histórico, que míngua mais e mais conforme nos distanciamos do presente, faz crer que sempre foi assim. Mas basta uma breve pesquisa para descobrir que nem sempre foi assim, e de fato, ainda não é assim em alguns dos poucos lugares ainda não massacrados com a dita civilização.

Basta, também, somente um pouco de reflexão e boa vontade para entender que, mesmo que sempre tivesse sido assim, não por isso teria que continuar a ser. Admitir que as coisas têm que continuar a ser como supostamente sempre foram é, além de uma ignorância histórica sem precedentes, de um conformismo assustador, adequado somente a quem considera a intransigência mais digna do que a tolerância.

Fecho o post com o fantástico George Bernard Shaw, trazido à luz pelo meu amigo Tom:

“Reasonable people try to adapt themselves to the world.
Unreasonable people try to adapt the world to themselves.
All progress, therefore, depends on unreasonable people.”

(Pessoas razoáveis tentam adaptar-se ao mundo.
Pessoas não razoáveis tentam adaptar o mundo a elas mesmas.
Todo progresso, portanto, depende de pessoas não razoáveis.)

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