Feminismo 2.0 – Elas não queimam mais sutiãs. Mas querem “destruir o politicamente correto”

28 jul

Por: Adriana Veloso

[ 27/01/2004 ] Destruir o politicamente correto. Acabar com as relações humanas de patriarcado. O radicalismo volta ao discurso feminista via anarco-feminismo. Segundo a escritora e militante Rocio Fernandez, isto não inclui “nem deus, nem patrão, nem amo, nem marido”, está ligado à idéia de uma cultura feminina como caminho para a realização do anarquismo, ainda que atualmente essa idéia de gêneros esteja se desintegrando.

Em outras palavras, devemos continuar pensando nesse sistema binário, pré definido pela biologia, de homem/mulher? Judith Butler, autora do livro Problemas de Gênero, recentemente lançado no Brasil pela editora Civilização Brasileira, acha que não. Ela é responsável pelo que ficou conhecido como “teoria queer”, que possui um alto grau de influência do filósofo francês Michael Foucault e suas idéias sobre a sexualidade.

O que há em comum entre a evolução desses pensamentos é o fato de que eles afirmam que há na opressão na sociedade em que há supremacia branca e masculina. Seja na mídia, nas relações de trabalho ou na política, há uma dominação patriarcal na convivência.

Feminismo hoje

Elas NÃO são mal amadas. E têm mais o que fazer além de lutarem por seus direitos: trabalham, estudam, dirigem e pegam ônibus, cuidam de filhos e da casa, ainda arrumam tempo para se divertir.

Esse desvio do discurso tradicionalmente sexista é somente uma provocação. A chilena Alejandra Pinto, ressalta que “o fato de ser mulher não exclui a possibilidade de ser patriarcal nas relações sociais”. Afinal, muitas mulheres ainda pensam sobre sua posição como provedoras. O reflexo que enxergam no espelho está bem mais próximo do que a sociedade deseja que elas façam do que realmente elas querem para suas vidas. É a influencia sócio cultural na subjetividade de cada um.

As feministas do século XXI são bem diferentes daquelas que queimaram sutiã em praça pública na década de sessenta. Por exemplo, em São Paulo, uma casinha na Vila Madalena abriga as mulheres Sempre Vivas. Elas atuam na sociedade como mães, como movimento social, como instituição e recentemente como organização não governamental.

Quem mostra o local é Julia di Giovanni, uma jovem de olhos claros e com idéias, digamos, bem pouco conservadoras. Às vésperas de viajar para o Fórum Social Mundial na Índia, ela explicava a grande mudança que ocorreu no pensamento feminista. Logo após a conferência Mundial sobre a Mulher, que ocorreu em Pequim, no ano de 1995, “ficamos muito desiludidas com a forma com que o feminismo foi tratado. Entendemos então que era preciso criar algo autônomo”, diz Julia, que ressalta que “a ONU, a OMC, a ALCA… de que adianta as mulheres terem espaço lá dentro se nada vai mudar?” Afinal de contas, trata-se de organismos patriarcais “que colocam a questão de gênero em segundo plano”, diz.

As Sempre Vivas “acreditam no espaço de autonomia das mulheres, valorizando os grupos só de mulheres”, ressalta Julia, que descreve que nessas reuniões utilizam o recurso de “desconstrução do pós-estruturalismo”: “colocamos na roda objetos ‘masculinos’ e ‘femininos’ e questionamos a identidade criada a partir do gênero”.

As meninas dizem que o processo de globalização oprime ainda mais as mulheres. “Com a perda de serviços públicos, como creches, escolas, hospitais, significa então que sempre haverá uma mulher trabalhando em casa para suprir essa falta”, explica.

Trabalho e família

O trabalho doméstico é abordado por todas feministas.“O salário das mulheres é encarado como complemento ou acréscimo para a sustentação da família”, explica Julia.

Uma referência contemporânea importante a se ressaltar em tempos de pré-ALCA é o caso das maquilladoras no México. Logo depois que o NAFTA – Área de Livre Comércio da América do Norte – entrou em vigor, muitas corporações mudaram-se para o país em busca de mão-de-obra barata. Como as mulheres ainda ganham menos que os homens, cerca de 85% da força de trabalho dessas montadoras era feminina.

A luta sindical das mulheres é uma questão em debate desde o século XIX. Possui referências como as anarquistas Emma Goldman e Lucy Parsons, ambas imigrantes anarquistas vivendo em Chicago, pouco antes do sufrágio universal, que é considerado o primeiro levante feminista por garantir-lhes os direitos políticos, o voto e a participação na vida pública.

O segundo levante feminista foi na década de 60. Peggy Kornegger, que em 1975 escreveu um tratado sobre o anarco-feminismo, relata: “com a segunda onda do feminismo (…) as formas em que as mulheres se organizaram refletia freqüentemente uma consciência libertária não declarada”.

Há de se levar em conta também as diversas influências político sociais da época, que vão do hippie ao pré punk. Talvez devido a esse multiculturalismo, o movimento feminista tenha se diversificado tanto. Aqui, nos interessa o anarco-feminismo, que segundo Kornegger trata-se da “negação total de todas as idéias e organizações patriarcais”.

Como o próprio nome diz, o anarco-feminismo é a mescla de princípios anarquistas na luta feminista. De acordo com a militante argentina Rocio Fernandez, que já fez parte de vários coletivos, a principal discordância entre as anarco feministas e as feministas é a concepção de poder. Enquanto algumas vertentes do feminismo lutam pela equivalência de poder, seja ele econômico ou político, as anarco-feministas o percebem “como uma batata quente, que queima nossas mãos, então melhor que seja dividido”, explica.

Rocio, cuja mãe era feminista e o pai anarquista, diz que sua luta é “pela liberdade, por não estar presa pela culpa da religião, nem explorada duplamente pelo neoliberalismo, nem por uma educação castradora, nem escravizada por contrato matrimonial”.

Peggy Kornegger acredita que “o feminismo é a chave para se chegar à revolução anarquista”. Por outro lado, e tendo-se em conta que o texto é de 1975, as anarco feministas de hoje, identificadas com a “teoria queer” se sentem confusas para defender uma ou outra postura. Alejandra Pinto, a chilena que mantém o site Mujeres Creativas, acredita que “as mulheres possuem outras formas de relacionamento que não são tão hierárquicas”. Por outro lado, ela também admite que “o ponto de construção de cada um como indivíduo, leva em conta o masculino e o feminino como parte de algo contínuo, não mais como algo oposto”.

No momento, existe uma “ruptura dentro do pensamento feminista”, diz Samantha Neves, feminista que, quando estudante fez parte do Fórum Feminista Estudantil, da USP, Universidade de São Paulo. Segundo ela, os estudos sobre gênero de Joan Scott, “influenciaram muito as feministas, uma vez que o gênero é analisado como uma categoria que se constrói historicamente para delimitar as relações de poder”. Scott falava de ”masculinidades” e ”feminilidades” para definir os comportamentos socialmente construídos. Samantha explica que “há um conjunto de significados do que é ser mulher e do que é ser homem”.

Essa visão binária do gênero foi e continua sendo objeto de estudos e pesquisas. Mas Júlia ressalta que houve um retrocesso na discussão sobre o papel da mulher na sociedade patriarcal. “Em nossas discussões com garotas mais jovens, percebemos uma forma de sexismo muito explícita, que é a exposição da mulher e seu papel na mídia, principalmente na publicidade”, ressalta.

Outro fenômeno contemporâneo, que não era de tanta relevância para as feministas da década de 60, é questão do que Julia relata ser a “mercantilização do que é ser mulher”. Referindo-se a indústria de cosméticos, as revistas femininas, e também a “mercantilização da sexualidade, com seus produtos de sex shop e exigências de um corpo perfeito”, completa.

Além disso, há formas implícitas de sexismo, “que aparecem principalmente nas relações sociais entre amigos, colegas de trabalho e na família”, diz Samantha. Outro ponto tão importante quanto a questão do trabalho é a obrigação de constituir uma família. Esse culto à estrutura familiar, é definido por Júlia como “familismo”.

Em contraposição a isso, Rocio destaca que hoje em dia “há uma descentralização da família como unidade social, a agrupação humana tem explorado outros laços que não são os familiares”, explica ela, que cita a formação de comunas como um exemplo.

Negação do normal

Ir contra o que é pré estabelecido, contra o esperado pela sociedade. Essa é uma das idéias centrais tanto do anarquismo quanto da “teoria queer”. Rocio Fernandez identifica que, “o queer ataca justamente tudo aquilo que é considerado como natural”.

Nas palavras de Guacira Lopes Louro, da faculdade de educação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), “Queer representa claramente a diferença que não quer ser assimilada ou tolerada e, portanto, sua forma de ação é muito mais transgressiva e perturbadora”.

A palavra ‘queer’ em inglês significa estranho, esquisito, e por um tempo, foi empregada de forma pejorativa para classificar os homossexuais, que se apropriaram do termo para subvertê-lo. Na comunidade gay, os que se identificam como queer normalmente são os mais politizados, em sua maioria, influenciados pelo anarquismo, pelo pós estruturalismo e pelo filósofo Michel Foucault, e que portanto se enxergam fora dos padrões, inclusive dos gays.

As sexualidades dos gêneros

To be or not to be. E se Hamlet estivesse falando: “Estar ou não estar?”. A tradução do clássico texto de Shakspeare para o português é sempre com o verbo ser. Mas porque não estar? Afinal de contas, o verbo to be significa tanto ser, quanto estar. É justamente nessa contra concepção que a teoria queer se baseia. O ser humano não é nada definitivamente, ao contrário, “está sendo”.

O que Butler, que é Professora de Literatura comparada e Retórica da Universidade da Califórnia, sustenta é que o gênero de uma pessoa é algo fluído que se modifica de acordo com o tempo e o contexto. A identidade das pessoas é algo tão complexo, composta de tantos elementos que de fato a teoria queer propõe que desfiemos toda e qualquer noção de eu sou, em contraponto encara o ser humano como formas variadas e não presumíveis.

Nesse contexto, a sexualidade não pode ser inserida nessa perspectiva de opostos, uma vez que comportamentos como o do gay macho, ou da lésbica chique convivem juntamente como o do travesti, ou os estereótipos da bicha desmunhecada e da ‘caminhoneira’ (gíria para designar mulheres masculinizadas).

Essa diversidade só é possível por causa da subjetividade do ser humano, que não se encaixa em “uma disposição psíquica do gênero binário”, em palavras de Butler, ou na identidade cultural e sexual como afirmação de personalidades historicamente desejadas e aceitas culturalmente.

Tais pensamentos ajudaram a compor essa visão de gênero binário (homem-mulher) como ficção. Butler enxerga essa construção social e biológica como errônea, uma vez que é baseada numa espécie de racionalismo de opostos. Essa tradicional visão de gênero não comporta o “exótico”, o “diferente”. Até mesmo no movimento gay havia “uma concepção de identidade homossexual unificada, que vinha se constituindo como base de identidade”, ressalta Guacira. Portanto, mesmo o movimento gay tinha dificuldades de entender as androginias.

De certa forma, todos acabamos sendo queer a partir do momento em que nossas identidades são subjetivas e únicas. As pessoas que possuem dificuldade de seguir moldes, fugindo de rótulos e levando um “estilo transeunte” de vida, muitas vezes, são mal compreendidas.

SE VIRA

http://www.sof.org.br
Mujeres Creativas
Fotos das maquilladoras.

Bibliografia
Peggy Kornegger, Anarquismo: La coneción feminista.
Guacira Lopes Louro, Teoria queer: uma política pós-identitária para a educação. Rev. Estud. Fem., 2001, vol.9, no.2, p.541-553.

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